Religiosas e Religiosos em missão na Amazônia enviam mensagem aos jovens da Vida Consagrada

 

Por ocasião da realização da missão jovem na Amazônia em março de 2015, jovens religiosas e religiosos da Vida Consagrada enviaram uma mensagem a todos os jovens da Vida Consagrada para narrar as belezas, as alegrias, como também os grandes desafios da missão na Amazônia. "A experiência aproximou-nos da realidade e sentimos ser presença de Jesus Cristo entre os mais desprovidos, nas mais diversas necessidades, mas certos da presença amorosa de Deus, que caminha com seu povo. Confirmamos quanto é importante conhecer diferentes realidades da que vivemos cotidianamente. A semana de missão contribuiu para nos avaliarmos e percebermos quanto somos agraciados e, por vezes, acomodados e mal-agradecidos". Leia a integra da mensagem.

Carta da Missão da Vida Religiosa Jovem na Amazônia

 Santarém (PA), 06 de abril de 2015. 

“Voltaram e contaram o que tinha acontecido no caminho” (Lc 24,33-35).

Irmãs e Irmãos!

“Cristo aponta para a Amazônia”. (Papa Paulo VI)

Com grande alegria, nós, 25 jovens religiosas e religiosos de dez Estados brasileiros, no Ano da Vida Consagrada, enviados em missão para a Diocese de Óbidos e Prelazia de Itaituba, depois de um dia de formação em Santarém, no Pará, partilhamos a inesquecível experiência que fizemos na Semana Santa e Tríduo Pascal, a partir do Projeto Primeira Missão da Vida Religiosa Jovem, uma iniciativa da Conferência dos Religiosos do Brasil com as Comissões Episcopais para a Amazônia e Ação Missionária, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A experiência aproximou-nos da realidade e sentimos ser presença de Jesus Cristo entre os mais desprovidos, nas mais diversas necessidades, mas certos da presença amorosa de Deus, que caminha com seu povo. Confirmamos quanto é importante conhecer diferentes realidades da que vivemos cotidianamente. A semana de missão contribuiu para nos avaliarmos e percebermos quanto somos agraciados e, por vezes, acomodados e mal-agradecidos.

Essa missão nos deu a oportunidade de sermos pobres com os pobres, aprendermos a não desperdiçar as oportunidades que a vida nos dá e olhar a todos como irmãos e irmãs, vivendo cada dia com esperança, sem desanimar mesmo em condições de extrema necessidade. Aprendemos essa lição ao conviver com os povos da Amazônia, escutando suas histórias, celebrando a fé a seu modo, por estradas, vicinais, linhas e rios.

Nossos olhos testemunharam também que a Amazônia, o maior mosaico de biodiversidade do planeta, lamentavelmente corre risco, sobretudo na sua maior riqueza, o ser humano, que está sendo o mais ameaçado.

Percebemos o grande êxodo do campo para a cidade, e o povo vive nas periferias em condições precárias e sem assistência. Comunidades ribeirinhas, quilombolas e aldeias indígenas estão ameaçadas de ser submersas pelas construções das hidrelétricas. Há o drama da exploração sexual contra crianças e adolescentes; o tráfico de drogas, um de seus grandes corredores; a violência no campo e na cidade, ceifando vidas; ameaça de morte colocando em risco as lideranças que lutam em defesa da justiça e dos direitos humanos. Estas e outras realidades são conseqüências de um projeto de “desenvolvimento” que visa apenas à exploração das riquezas naturais desta região, sem que haja o justo respeito aos direitos dos que lá vivem.

Diante dessas realidades, nós, jovens da vida religiosa, nos sentimos interpelados: “Levanta-te, desce e vai ter com eles, sem hesitar, pois fui eu que os mandei” (At 10,20). Como jovens religiosos/as, ressaltamos o desejo de continuar essa missão com o Povo de Deus que vive na Amazônia, atendendo solícitos ao apelo do papa Francisco: “A Igreja está na Amazônia não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam”. Queremos efetivamente assumir esse compromisso de estar com o povo, respeitando sua alteridade e reconhecendo a sacralidade da criação de Deus.

Expressamos também nossa gratidão ao Deus da Vida, porque nessa semana pudemos perceber que, não obstante as fragilidades e o baixo número de missionários/as, a Igreja na Amazônia sempre se empenha em comunicar Jesus Cristo ressuscitado como Caminho, Verdade e Vida, e procura marcar presença nas diversas realidades do Povo de Deus.

E, iluminados pela mensagem de dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu (PA), proclamada por dom Wilmar Santin, bispo de Itaituba, que presidiu a celebração de envio para a Missão da Vida Religiosa Jovem na Amazônia, colamo-nos à disposição e convidamos a todos/as para novos projetos missionários na Amazônia.

“Vai, meu irmão, minha irmã! Lá, em tua nova missão, em tua nova terra, em tua nova pátria, anunciarás Jesus Cristo e o seu Evangelho. Servirás aos pobres, aos excluídos do banquete da vida, lavando-lhes os pés. Falarás com quem nunca andou ou não anda mais conosco. Aproximarás com muito carinho de um povo com cultura e tradições diferentes. Chegando lá, estranharás, sem dúvida, os costumes e usos locais. Mas, não imporás as tuas ideias! Não apresentarás o País que te viu nascer como paraíso! Não dirás nunca que, no lugar onde te criaste, as coisas estão bem melhores! Não darás nunca a impressão de que vieste para ensinar, para civilizar, para instruir, para colonizar! Jamais violentarás a alma do povo, que, doravante, será o teu povo! Oferecerás simplesmente o testemunho de tua fé, de tua esperança e de teu amor, e darás a tua vida até o fim, até as últimas conseqüências! Assim, tu terás o privilégio e a felicidade de viver a graça de todas as graças: encontrarás o Senhor, que disse: ‘Depois que eu ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia' (Mc 14,28). Missão é sempre ir à Galileia, às Galileias de todos os continentes!”

Que assim seja! Contem com a bênção de Deus e as singelas orações desses 25 jovens religiosas e religiosos, que mergulharam na Amazônia e a portam no coração para sempre.